segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Profundidade em (ad)oração

É muito cedo e eu estava pensando, com o Senhor, sobre alguns desafios que têm surgido à nossa frente, relacionados à nossa participação no cumprimento do Propósito Eterno de Deus, de expandir Seu Reino e estabelecer Seu Governo na Terra.

Tive a nítida impressão de estar em uma mina, local onde a água brotava da terra, muito límpida, cristalina e, como se movia, dava-me a ideia de que havia muito mais água de onde aquela viera. Senti o Senhor falando em meu espírito: 


'Há muito mais água. Falta profundidade em oração'.

Alguns entendimentos se apossaram de minha consciência. Imediatamente, lembrei-me do que temos aprendido, há cerca de três anos, com nosso amigo Rogério Lima: um abismo chama outro abismo. Lembro-me do dia em que fui desafiada, via msn, a me lançar para o próximo abismo, dentro de Deus, consciente de que meu relacionamento com Ele deveria ser como uma queda para dentro dEle, havendo sempre um nível mais profundo a alcançar. Temos experimentado e ensinado sobre isso, especialmente no que diz respeito à adoração: vida de adoração e momentos especificamente preciosos de adoração.

Mas, hoje, o Senhor estava falando de oração. E, pela forma como me senti, na mina, compreendi que estou em um nível muito raso no que diz respeito à oração. Há muitos recursos disponíveis, na verdade, todos aqueles que o Senhor já nos deu; mas, falta-nos alcançá-los... porque estamos em um nível raso de relacionamento com o Senhor. Normalmente, ocorre o contrário: dizemos às pessoas que se concentram em apenas orar, que precisam adorar, colocar-se diante de Quem Deus é, imbuída da consciência de que Ele está ali e dar a Ele a totalidade de seu ser, em reconhecimento à Sua Presença, à Sua Pessoa. É claro que a adoração nos leva à intercessão, à celebração, à ação de graças, ao quebrantamento, aos gemidos, lágrimas e ao silêncio. A adoração nos rasga diante do Pai e rasga o véu que cobre nossos olhos, para que O vejamos. Precioso. Quando o Pai Se mostra, há verdadeira adoração. Precioso!

Mas, nesta manhã, o Senhor está falando sobre oração. Precisamos compreender que o Senhor está falando do que Ele considera oração e não do que nós pensamos que seja oração. Temos muitas ideias equivocadas sobre oração. Para muitos de nós, oração é uma prece que atrai coisas boas e afasta coisas más e que podemos utilizar a nosso bel-prazer... Para outros, oração é uma prática mecânica e imposta, por submissão à autoridade ou por medo do castigo, se é que as duas coisas não são apenas uma. Para muitos, é apenas uma superstição, ativada em momentos estratégicos, como bater na madeira para isolar algo. Para uns, a oração é um feitiço, no qual apresentamos a Deus a forma como queremos que a vida das pessoas se desenrole. Alguns de nós, embora sinceros, usam a oração para obter coisas e favores. E outros, infelizmente, usam a oração como carteirinha, para mostrar por onde vão...

Não pude deixar de olhar para Jesus. Afinal, Ele não apenas nos ensinou a oração com palavras, mas com sua própria vida. Creio que a oração que chamamos de Pai Nosso, que foi ensinada aos discípulos por Jesus, teve cada uma de suas palavras vividas por Ele e vividas em um nível profundo. Penso que era isso o que esperava de nós ao ensinar-nos a orar. Ao despertar para isso, que, além de momentos íntimos, Jesus estava nos chamando a uma vida de oração diante do Pai, poderemos perceber que a forma como o Senhor encara a oração é a mesma forma como Seu Espírito tem nos chamado a viver a adoração. E aqui, há um ensino precioso, tão precioso como é precioso adorar ao Senhor, tão precioso como precioso é orar: oração e adoração são faces de uma só coisa, do nosso relacionamento com o Pai. Relacionamento que deve ser íntimo, para que possa se expressar em público, na vida.

Podemos ver oração e adoração sendo reveladas no relacionamento de Jesus com o Pai. O Senhor tinha uma forma muito ativa de relacionar-Se com o Pai. Podemos percebê-lO a sós com o Pai, nas madrugadas, assim como O encontramos orando e agradecendo ao Pai, diante da multidão e, em ocasiões como esta, disse que o fazia por causa dos que O ouviam. E podemos encontrá-lO adorando ao Pai com Suas decisões e atitudes. Jesus estava consciente de que o Pai estava com Ele o tempo todo. O Pai não estava apenas no céu, assentado no Trono, mas nos céus, na atmosfera ao redor de Jesus. O Pai está em todos os lugares, o tempo todo. Reconhecer isso é adoração e é base para nos comunicarmos com Ele e expressarmos a vida dEle em nós. Precisamos apreender esta verdade: Deus está aqui. E é mesmo tão certo como o ar que eu respiro. Se chegarmos a esta consciência, saberemos que podemos falar com o Pai em todos os momentos e que, tanto nossa oração, como nossa adoração, não precisarão ser feitas apenas de palavras, mas de cada manifestação de vida em nós, dentro e fora.

Assim, conscientes, haverá momentos em que sentiremos NECESSIDADE de nos retirarmos e ficarmos sozinhos com o Pai. Sim, pois, mesmo em meio às multidões que nos cercam, de pessoas, de trabalhos, de acontecimentos, de sentimentos, saberemos que o Pai está ali conosco. Mas, se abandonarmos as práticas religiosas que herdamos e nos dispusermos a viver segundo a cultura do Reino de Deus, veremos que o Pai espera que o filho queira ter um momento de privacidade, de intimidade com Ele, o Seu Pai. Como Jesus fazia. Não temos relatos sobre os momentos em que Jesus Se retirava para estar com o Pai, exceto pela narração de Sua agonia no Getsêmani. E isso mostra que Ele procurava, mesmo, ficar sozinho com o Pai. De Sua ação de graças, dizendo que o Pai sempre O ouve, podemos presumir que tratava com o Pai dos assuntos do Seu cotidiano, envolvendo as situações que havia vivido ou viria a viver. Parece-me que tudo o que Jesus vivia, já havia sido conversado com o Pai. Não me lembro de ter visto em Jesus uma atitude religiosa, do tipo que temos quando alguém nos pede um favor e dizemos que precisamos orar a respeito, embora, na maioria das vezes, nem cheguemos a levar aquilo diante do Pai. Parece-me que Jesus sabia qual era a vontade do Pai em cada situação e, certamente, isso se devia às Suas conversas em particular com o Pai e, também, à Sua consciência da Presença do Pai e Sua intimidade com Ele, que Lhe permitia ver o que o Pai estava fazendo e ouvir o que o Pai estava dizendo, para que pudesse corresponder.

Sua oração no Getsêmani abre para nós uma realidade fantástica: em Seus momentos íntimos com o Pai, Jesus gastava tempo Se pré-ocupando com a vontade do Pai, com o Seu plano imutável que vem se desenrolando desde antes da fundação do mundo, com o Propósito específico do Pai a Seu respeito. Ele não apenas falava de Suas inquietações ou angústias, embora o tenha feito com muita sinceridade, mas Jesus olhava para o Pai e, conhecendo-Lhe o coração, submetia Sua própria vontade à vontade dEle. Assim, Jesus Se alinhava ao plano imutável do Pai e Se mantinha na Origem. Assim, Jesus recebia do Pai todos os recursos para ser o Evangelho do Reino para todos.

Ora, estas são coisas tremendas! Nosso destino é crescermos até o tamanho de Jesus: seremos como Ele, para cumprirmos o propósito específico de nossa existência no Reino de Deus. Como isso é plano eterno, precisamos compreender que ser como Jesus não diz respeito apenas a um futuro distante. Na eternidade, não há presente ou futuro, mas aquilo que teremos que ser, já somos n’Ele. Precisamos que o Senhor nos convença de que somos chamados a ser como Ele e isso pode e deve se manifestar agora, pois, para Ele, já é assim. Então, sou compungida a reconhecer que estou mesmo em um nível muito raso de oração. Preciso estar consciente o tempo todo de que o Pai está aqui. Preciso alcançar um nível de intimidade com Sua Presença que me leve a vê-lO e ouví-lO, na hora da ação. Preciso saber a vontade do Pai, para tomar minhas decisões e dar minhas respostas. Preciso conformar minha vida à vontade do Pai. Sim, toda a minha vida tem que ser uma oração. Além disso, preciso estar desesperada por ficar a sós com Ele, adorá-lO e conversar com Ele. Sim, conversar. Falar e ouvir. Falar sobre tudo o que carrego em mim e ouvir sobre tudo o que Ele traz em Si mesmo, ao menos, tudo o que Ele quiser me mostrar. Cantar, tocar, dançar, expressar, falar, ouvir, aprender e apreender, para viver. E viver!

Às vezes, os pais contam histórias que, na hora, parecem sem sentido para os filhos. Meses ou anos depois, no entanto, lembram-se delas e compreendem quão sábios foram os pais ao ensinar-lhes aqueles princípios. O Pai tem histórias para nos contar e sabe as histórias certas que precisamos ouvir. Que possamos nos assentar em Seu colo, como filhos sedentos, e beber de Suas Águas, vorazmente, ainda que não tenhamos a compreensão de tudo. Ele mesmo tem interesse em nos preparar para caminharmos em meio à nossa geração, correspondendo com Seu chamado. Ele mesmo quer fazer de nós filhos em quem Ele tem muito prazer.

Que possamos exercitar nossa consciência de que Ele está aqui, onde estamos, o tempo todo. Que possamos mostrar a Ele que estamos lá, onde Ele nos espera, sozinhos com Ele, com muito tempo para investir no mais precioso relacionamento de nossas vidas. Que isso nos leve a níveis cada vez mais profundos, dentro dEle, onde há muita, muita Água.
 
Jackeline Sarah
Escritora
(Escrevi este texto em 14-08-2010, mas o que aprendi com ele será sempre atual.)

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3 comentários:

Ana Carol Teles disse...

Ao lugar mais profundo... e que Ele nos deixe lá!

Anderson Arthur (Cotoxão) disse...

UAU! 24h...

Thaís disse...

Todo dia,em todo lugar,é assim que eu quero te (AD)orar!